Sapatos, blusas, casacos e cintos

diabovestepradavale_f_029.jpg megera: Onde estão os cintos?
assistente: Estão aqui. Vai ser difícil a escolha… São tão diferentes.
vítima: Qua qua qua…
megera: Algo engraçado?
vítima: Não, nada. É que para mim estes dois cintos são iguais. Os dois sâo… azuis… Ainda estou aprendendo… sobre estas “coisas”…
megera: Estas “coisas”? Ah, entendi! Acha que isto não tem nada a ver consigo? Você abre o seu guarda-roupa e agarra… sei lá… um suéter todo amarrotado. Porque está tentando dizer ao mundo que é séria demais para se preocupar com o quê vestir. Mas não sabe que esse suéter não é somente azul. Não é turquesa. É “cirilio”. E você também é cega para o fato que em 2002 Oscar de la Renta fez uma coleção com vestidos somente nesse tom… E o cirilio começou a aparecer nas coleções de muitos estilistas, e imediatamente chegou às lojas de departamentos… e acabou como um ítem de liquidação nessas lojinhas de beira de esquina. E foi assim que chegou ate você! Sem dúvida esse azul representa milhões de dólares em incontáveis empregos. E é meio engraçado quando acha que fez uma escolha que te exclui da indústria da moda, quando, na verdade está usando um suéter que foi selecionado para você pelas pessoas nesta sala… Entre uma pilha de “coisas”.


Fui assistir ontem ao filme O DIABO VESTE PRADA. Um conto de Cinderela ambientado no mundinho da moda. O diálogo acima, para mim, foi o melhor de todo o filme e mostra como as coisas podem ser feitas sem você perceber.
Eu pude sentir o clima de excitação da audiência no cinema causada pela ininterrupta exibição de modelitos de Channel, Oscar de La Renta, Calvin Klein, Donna Karan, Dolce & Gabbana, Bill Blass, Versace, Galliano e outros que desfilaram na tela ao longo da exibição de todo o filme. Se as lojas do shopping ainda estivessem abertas, com certeza a mulherada iria acabar com todo o limite do cartão de crédito dos maridos, sem pestanejar…
Disseram-me que Design é “desenhar algo que tenha uma funcionalidade”. Fashion é a tradução literal para a Moda, que é um “termo que se refere a tendência variável consoante com as inclinações de gosto de uma dada sociedade ou grupo”, no caso, gosto do vestuário. E Fashion Design, a Funcionalidade da Moda, é algo quase inatingível da maneira que a moda é feita em nossos tempos, onde a criação vem antes da inclinação da sociedade.
Já me disseram também as cores e estampas da estação são determinadas pela cor mais barata do mercado chinês. O objetivo da funcionalidade da moda atual parece apenas ser levantar mais uma máscara para o Ego, na tentativa de ser algo que a pessoa não é, do que a expressividade individual e autêntica daquilo que a pessoa é e pensa.
A “vítima” do filme, uma espécie de Cinderela dos tempos atuais, deixa-se seduzir-se ao mooondo fashion de sua chefe vilã, que me lembrou a Cruela Devil, e até transa com um outro cara em Paris. C’est la vie, aqui todos somos humanos e aqui até a Cinderela pisa na abóbora…
O filme é muito divertido, com uma edição rápida de cenas e uma trilha sonora bem legal, com U2 e Madonna, entre outros… Adorei ver a Big Apple, como era mostrada nas filmagens pré 11 de Setembro. Por momentos tive saudades de Sex In The City… Porém o filme se concentra muito nas criações da alta-costura e no estilo de vida de glamour associado a ela, e assim acaba idolatrando aquilo que na origem se proporia a satirizar.
Afinal, ao rendermo-nos ao Mundo da Ilusão, somos nada mais do que ‘blusas, casacos e cintos”…



megera: Eu vejo muito de mim em si. Você vai mais além do que as pessoas querem… do que precisam. E sabe tomar decisões.
vítima: Eu não acho que seja assim. Eu… Eu não faria o que fez hoje Miranda. Não faria algo assim.
megera: Mas você já fez… Com a Emily.
vítima: Não, não foi isso… Não, aquilo foi diferente. Eu não tive escolha.
megera: Não, você escolheu. Escolheu viajar… E nesta vida as escolhas são necessárias.
vítima: Mas e se… isto não é o que eu quero. Quero dizer… Eu não quero viver do jeito que você vive.
megera: Ah, não seja ridícula… Todo mundo quer isso. Todo mundo quer ser como nós.
vítima: Eu só queria… Dizer que tens razão sobre tudo. Eu dei as costas para os amigos, para família… E tudo que acreditava. E em troca de quê??? Sapatos, blusas, casacos e cintos… FUI!

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